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  • Quando a fome pela Bíblia desaparece

    Uma reflexão bíblica sobre apetite espiritual, substituições perigosas e identidade cristã.

    Não sei se você já reparou em um bebê recém-nascido quando está com fome. Ele deseja o leite materno de tal forma que, se a mãe não o amamentar, o choro é certo. É interessante fazer o exercício de observar o desejo ardente da criança em conseguir aquele leite. Ela fará o impossível para que possa ser amamentada: vai chorar até que a mãe seja vencida e ceda à amamentação.

    Em 1 Pedro 2:2, lemos um versículo que diz assim: “desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual”. O verbo “desejar” está no imperativo; portanto, temos uma ordem clara para que o nosso desejo seja ardente pelo “leite espiritual”, o que entendemos poder ser aplicado à Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada.

    Uma criança recém-nascida tem dependência total desse leite, uma fome intensa por ele e uma clareza muito forte de que esse é o único alimento capaz de satisfazê-la. Um bebê não negocia seu leite por nada e também não o substitui por outra fonte de alimento. Para ele, ou amamenta, ou amamenta; não existe outra opção.

    A metáfora que Pedro utiliza é fantástica, pois ele, inspirado pelo Espírito Santo, nos ordena a agir como uma criança recém-nascida em relação ao seu alimento: ter dependência total da Bíblia Sagrada, ter uma fome intensa por ela e uma clareza profunda de que somente a Bíblia pode nos proporcionar o “crescimento para a salvação” (1Pe 2:2). Não podemos tratar a Bíblia como algo negociável, nem a substituir por outro “alimento”, pois isso nos levará à morte. É aqui que quero falar mais seriamente com você.

    No meio do cristianismo, cada vez mais a Bíblia tem perdido seu espaço no que diz respeito à leitura. Muitas vezes, ela pega poeira ao permanecer aberta por meses em algum salmo ou em outra parte qualquer, sobre móveis dentro de casa. O desejo ardente de estudar profundamente as Escrituras tem se perdido aos poucos e, com isso, ideologias antibíblicas passam a dominar a cosmovisão das pessoas. Talvez seja por isso que vemos uma lacuna tão grande entre o ser e o viver cristão.

    No meio adventista, do qual faço parte, recentemente foi divulgado um dado pelo site oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Um levantamento institucional aponta que menos da metade dos adventistas na América do Sul mantém o hábito da leitura bíblica diária, sendo 48,2% entre os homens e 49,3% entre as mulheres (SEIXAS, 2024). Em um continente onde existem cerca de 2,7 milhões de adventistas, menos da metade tem o hábito de estudar a Bíblia regularmente. Talvez aqui esteja um dos fatores que expliquem por que vemos nossa identidade se tornando cada vez mais líquida — mas esse assunto fica para outra oportunidade.

    O fato é que o apetite bíblico está cada vez menor, e eu fico me questionando sobre o que tem acontecido. Uma das respostas que encontro é que, provavelmente, as pessoas têm se alimentado de outras coisas, e isso tem feito com que o apetite bíblico diminua drasticamente. Redes sociais, séries, filmes, jogos e um monte de outras “guloseimas” têm minado, cada vez mais, a fome pela Bíblia, e o que temos visto são cadáveres em pé, dentro e fora da igreja.

    Está na hora de isso mudar, e pode começar na sua vida. Que tal se alimentar mais da Bíblia e menos dessas besteiras? A sua falta de fome pela Bíblia é sinal de que sua barriga está se satisfazendo com outras coisas.

    REFERÊNCIAS:

    SEIXAS, Anne. Menos da metade dos adventistas na América do Sul leem a Bíblia todos os dias. Notícias Adventistas, 27 dez. 2024. Disponível em: <https://noticias.adventistas.org/pt/menos-da-metade-dos-adventistas-na-america-do-sul-leem-a-biblia-todos-os-dias/>. Acesso em: 30 dez. 2025.

  • Entre o dizer e o viver.

    Este site nasce de uma inquietação antiga. Não de uma ideia repentina, mas de um incômodo persistente, daqueles que não se calam com o passar do tempo. Há anos carrego dentro de mim uma pergunta que insiste em voltar: por que existe, hoje, uma distância tão visível entre o professar ser cristão e o viver, de fato, o cristianismo? Confessar a fé tornou-se algo comum, quase automático; viver essa fé, porém, parece cada vez mais raro. Essa incoerência não é apenas algo que observo nos outros — ela me confronta diariamente, me alcança, me exige reflexão e arrependimento.

    Vivemos em uma época marcada por discursos cristãos abundantes, conteúdos religiosos em excesso e declarações públicas de fé, mas, paradoxalmente, por uma fragilidade crescente na vivência prática do evangelho. Dados recentes mostram que o cristianismo segue sendo uma das religiões mais professadas no mundo, e ainda assim vemos uma sociedade cada vez mais marcada pela superficialidade espiritual, pela fragmentação moral e pela dissociação entre crença e prática. Não se trata de falta de informação, mas de falta de coerência. Sabemos muito, mas vivemos pouco daquilo que dizemos crer.

    Este blog surge, portanto, como um espaço de reflexão honesta e necessária. Não com a pretensão de oferecer respostas fáceis ou fórmulas prontas, mas com o compromisso de pensar a fé cristã de forma séria, bíblica e aplicada à vida real. A teologia aqui não é tratada como um fim em si mesma, nem como um exercício meramente acadêmico, mas como aquilo que deve moldar o caráter, orientar decisões e transformar a maneira como vivemos diante de Deus e do mundo.

    Teologia na Prática é, acima de tudo, um convite a reduzir a distância entre aquilo que confessamos com os lábios e aquilo que vivemos no cotidiano. Um chamado à coerência, à profundidade e à fé encarnada. Se a nossa teologia não alcança a vida, então talvez não seja, de fato, teologia cristã.

    “Tornai-vos praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Tiago 1:22